Avançado Esperança de tratamento para STN?

Jose Mayo

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10 August 2014
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113
Rio de Janeiro
www.reefclub.com.br
#1
Então, pessoal...

Estou voltando devagar às minhas pesquisas aleatórias dentro da área de interesse de que mais gosto no hobby, mais especificamente a ecofisiologia do aquário marinho e seus desequilíbrios, como pragas, doenças e seus possíveis tratamentos. Ainda não voltei a montar um aquário para mim, logo, e lamentavelmente, ainda não posso materializar experimentos em cima das poucas informações acadêmicas que consigo garimpar e que penso que sejam de interesse para o aquarismo marinho, tais como, no caso deste tópico, as doenças do coral conhecidas agrupadamente como WS (White Syndrome), que tanto se refere a condições patológicas que causam o branqueamento do coral quanto à sua perda de tecido, geralmente em "bandas" ou "anéis" de necrose, sendo então referidas como WBD (White Band Disease) e, estas, conforme a velocidade com que progridem no corpo do animal, podem ser identificadas como RTN (Rapid Tissue Necrosis) ou STN (Slow Tissue Necrosis)... em princípio, e aqui, é a esta última que me refiro.

Dentre as WS, talvez seja a STN aquela em que o aquarista mais pode fazer para a recuperação do seu coral, mas para que possa agir rápida e prontamente, quando detectar a doença, algumas precondições devem estar preenchidas:

- O espécime atingido deve poder ser prontamente removido do aquário principal e colocado num aquário-hospital para que possa ser medicado e, este aquário hospital, deve dispor de boa circulação (no caso de acróporas "boa circulação" é quase sinônimo de "forte"), iluminação adequada (bem servida de espectro azul) e temperatura controlada e de acordo com a espécie a ser atendida;

- Para que possa ser retirado rapidamente do display, ou o coral deve estar numa pedra que possa ser facilmente removida ou, melhor ainda, numa base que possa ser removida. No caso da base, deve haver no aquário-hospital algum suporte que também se adapte bem a essa base e que permita posicionar o coral de modo que o favoreça nos aspectos de circulação e de luz.

Conforme estudos realizados em corais do Caribe, em situação de WBD que, no aquário, se apresenta como STN, parece que de fato essa doença é promovida por uma conjugação adversa de fatores infecciosos, compostos primariamente de bactérias e protozoários e, secundariamente, de algumas microalgas e fungos que se associam para participar da festa.

O fator desencadeante pode ser qualquer estresse mais acentuado que o coral receba e, com isso, tenha diminuídas as suas defesas; um ambiente eutrofizado (muito rico em nutrientes) pode ser um deles, variações bruscas na temperatura pode ser outro, agressões por predadores outro, desequilíbrio na microbiota associada à sua superfície (seja por açúcares excretados por algas ou esponjas, ou aleloquímicos dessas mesmas fontes ou de outros corais), outro.

Falta ou excesso de oligoelementos (leia-se falta de TPA, ou dosar sem critério), presença de metais pesados (cobre, prata, níquel, cádmio, boro, neodímio), cianotoxinas, dinotoxinas, escape de corrente elétrica no aquário também já foram relatados como prováveis causas desencadeantes e assim por diante.

Instalada a STN, vão agir sobre os tecidos do coral, mais diretamente, um pool de bactérias relacionadas aos gêneros Vibrio sp. e Roseobacter sp. além de um protozoário histofágico (comedor de tecidos) frequentemente encontrado nas lesões e com pedaços de tecido vivo do coral "na boca", que é o Philaster lucinda. Esses dois gêneros de bactérias, conforme o estudo que posto mais abaixo, são sensíveis à AMPICILINA e esse protozoário é sensível a METRONIDAZOL.

Então, identificada a STN, e transferido o coral atingido para o aquário-hospital (que não deve ser muito grande), pode ser usada uma associação desse dois antibióticos, conforme descrito no estudo abaixo, na dose de 100 mg/litro a cada 12 horas, com trocas parciais de água de 50% por dia, durante 06 dias.

Segue o link:

Experimental antibiotic treatment identifies potential pathogens of white band disease in the endangered Caribbean coral Acropora cervicornis

Agora é só experimentar...

Abs
 

Germano Araújo

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16 Outubro 2014
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#2
Mayo mais uma vez indo a fundo nas pesquisas...show de bola.

Minhas perdas quanto aos SPS sempre foram associados a instabilidade nos parâmetros (leia-se Kh!!). Sempre quando o coral "fala" já corro para os teste e verifico o que está errado e, no meu caso, sempre foi a variação brusca da reserva alcalina. Interessante é saber retirar o animal e trata-lo em local específico. Sempre fico pensando que seria mais um estresse que poderia acelerar o processo da STN...sempre fico me perguntando da viabilidade de retirar ou de tentar ajustar os parâmetros....reflexão...

Abs.
 
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Jose Mayo

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#3
Mayo mais uma vez indo a fundo nas pesquisas...show de bola.

Minhas perdas quanto aos SPS sempre foram associados a instabilidade nos parâmetros (leia-se Kh!!). Sempre quando o coral "fala" já corro para os teste e verifico o que está errado e, no meu caso, sempre foi a variação brusca da reserva alcalina. Interessante é saber retirar o animal e trata-lo em local específico. Sempre fico pensando que seria mais um estresse que poderia acelerar o processo da STN...sempre fico me perguntando da viabilidade de retirar ou de tentar ajustar os parâmetros....reflexão...

Abs.
Pois é, amigão, uma coisa é o "fator desencadeante", outra o que ele provoca. Mais ou menos seria como alguem se machucar brincando (ate aí a lesão é pequena), mas não perceber e o machucado infeccionar... Aí pode ficar sério e precisar de hospital e de antibióticos.

Hora dessas monto uma pocinha, pra voltar a brincar de doses e efeitos colaterais...

Forte abraço
 


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Marcos Urbano

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Jundiaí
#4
Então, pessoal...

Estou voltando devagar às minhas pesquisas aleatórias dentro da área de interesse de que mais gosto no hobby, mais especificamente a ecofisiologia do aquário marinho e seus desequilíbrios, como pragas, doenças e seus possíveis tratamentos. Ainda não voltei a montar um aquário para mim, logo, e lamentavelmente, ainda não posso materializar experimentos em cima das poucas informações acadêmicas que consigo garimpar e que penso que sejam de interesse para o aquarismo marinho, tais como, no caso deste tópico, as doenças do coral conhecidas agrupadamente como WS (White Syndrome), que tanto se refere a condições patológicas que causam o branqueamento do coral quanto à sua perda de tecido, geralmente em "bandas" ou "anéis" de necrose, sendo então referidas como WBD (White Band Disease) e, estas, conforme a velocidade com que progridem no corpo do animal, podem ser identificadas como RTN (Rapid Tissue Necrosis) ou STN (Slow Tissue Necrosis)... em princípio, e aqui, é a esta última que me refiro.

Dentre as WS, talvez seja a STN aquela em que o aquarista mais pode fazer para a recuperação do seu coral, mas para que possa agir rápida e prontamente, quando detectar a doença, algumas precondições devem estar preenchidas:

- O espécime atingido deve poder ser prontamente removido do aquário principal e colocado num aquário-hospital para que possa ser medicado e, este aquário hospital, deve dispor de boa circulação (no caso de acróporas "boa circulação" é quase sinônimo de "forte"), iluminação adequada (bem servida de espectro azul) e temperatura controlada e de acordo com a espécie a ser atendida;

- Para que possa ser retirado rapidamente do display, ou o coral deve estar numa pedra que possa ser facilmente removida ou, melhor ainda, numa base que possa ser removida. No caso da base, deve haver no aquário-hospital algum suporte que também se adapte bem a essa base e que permita posicionar o coral de modo que o favoreça nos aspectos de circulação e de luz.

Conforme estudos realizados em corais do Caribe, em situação de WBD que, no aquário, se apresenta como STN, parece que de fato essa doença é promovida por uma conjugação adversa de fatores infecciosos, compostos primariamente de bactérias e protozoários e, secundariamente, de algumas microalgas e fungos que se associam para participar da festa.

O fator desencadeante pode ser qualquer estresse mais acentuado que o coral receba e, com isso, tenha diminuídas as suas defesas; um ambiente eutrofizado (muito rico em nutrientes) pode ser um deles, variações bruscas na temperatura pode ser outro, agressões por predadores outro, desequilíbrio na microbiota associada à sua superfície (seja por açúcares excretados por algas ou esponjas, ou aleloquímicos dessas mesmas fontes ou de outros corais), outro.

Falta ou excesso de oligoelementos (leia-se falta de TPA, ou dosar sem critério), presença de metais pesados (cobre, prata, níquel, cádmio, boro, neodímio), cianotoxinas, dinotoxinas, escape de corrente elétrica no aquário também já foram relatados como prováveis causas desencadeantes e assim por diante.

Instalada a STN, vão agir sobre os tecidos do coral, mais diretamente, um pool de bactérias relacionadas aos gêneros Vibrio sp. e Roseobacter sp. além de um protozoário histofágico (comedor de tecidos) frequentemente encontrado nas lesões e com pedaços de tecido vivo do coral "na boca", que é o Philaster lucinda. Esses dois gêneros de bactérias, conforme o estudo que posto mais abaixo, são sensíveis à AMPICILINA e esse protozoário é sensível a METRONIDAZOL.

Então, identificada a STN, e transferido o coral atingido para o aquário-hospital (que não deve ser muito grande), pode ser usada uma associação desse dois antibióticos, conforme descrito no estudo abaixo, na dose de 100 mg/litro a cada 12 horas, com trocas parciais de água de 50% por dia, durante 06 dias.

Segue o link:

Experimental antibiotic treatment identifies potential pathogens of white band disease in the endangered Caribbean coral Acropora cervicornis

Agora é só experimentar...

Abs
Doutor! Tópico fantástico, de fácil leitura e entendimento, com MUITO conteúdo. Encontrei tudo que precisava saber para dar uma olhada nos meus SPS e identificar o que está acontecendo...só postei para lhe agradecer.
 
11 March 2018
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#5
Pois é, amigão, uma coisa é o "fator desencadeante", outra o que ele provoca. Mais ou menos seria como alguem se machucar brincando (ate aí a lesão é pequena), mas não perceber e o machucado infeccionar... Aí pode ficar sério e precisar de hospital e de antibióticos.

Hora dessas monto uma pocinha, pra voltar a brincar de doses e efeitos colaterais...

Forte abraço
Sempre que eu compro um novo coral eu faço a descontaminação do coral seguindo esses procedimentos https://reefclub.net.br/index.php?threads/como-descontaminar-um-novo-coral.1959/ que o @Leo Carvalho faz com os corais novos. Mas no caso de SPSs como bem relatou o Dr. @Jose Mayo não seria o caso de na profilaxia dos corais também acrescentar um outra etapa que seria com Metronidazol, Ampicilina ou até mesmo um antifúngicos como o fluconazol. Pois com esses medicamentos estaríamos eliminando, quando não diminuindo a possibilidade do coral vir com bactérias ou fungos e também levar esse microorganismos que já vieram com o coral para o aquário principal.

Eu vou estudar a possibilidade de acrescentar o mitronidazol, ampicilina e fluconazol, utilizando esses medicamentos em potes separados. É claro, que existem vários fatores desencadeantes como bem mencionou o Mayo. Até porque existe a possibilidade de que essas bactérias, protozoários e fungos já existam em nosso aquário principal e nem nos damos conta disso, porque até então nenhum coral tenha manifestado o RTN ou STN. Eu já usei tanto metronidazol, azitromicina e fluconazol no meu aquário principal em raras ocasiões, mas não restam dúvidas de que o ideal é usar essas substâncias em um aquário hospital.
 

Jose Mayo

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10 August 2014
2.401
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#6
Sempre que eu compro um novo coral eu faço a descontaminação do coral seguindo esses procedimentos https://reefclub.net.br/index.php?threads/como-descontaminar-um-novo-coral.1959/ que o @Leo Carvalho faz com os corais novos. Mas no caso de SPSs como bem relatou o Dr. @Jose Mayo não seria o caso de na profilaxia dos corais também acrescentar um outra etapa que seria com Metronidazol, Ampicilina ou até mesmo um antifúngicos como o fluconazol. Pois com esses medicamentos estaríamos eliminando, quando não diminuindo a possibilidade do coral vir com bactérias ou fungos e também levar esse microorganismos que já vieram com o coral para o aquário principal.

Eu vou estudar a possibilidade de acrescentar o mitronidazol, ampicilina e fluconazol, utilizando esses medicamentos em potes separados. É claro, que existem vários fatores desencadeantes como bem mencionou o Mayo. Até porque existe a possibilidade de que essas bactérias, protozoários e fungos já existam em nosso aquário principal e nem nos damos conta disso, porque até então nenhum coral tenha manifestado o RTN ou STN. Eu já usei tanto metronidazol, azitromicina e fluconazol no meu aquário principal em raras ocasiões, mas não restam dúvidas de que o ideal é usar essas substâncias em um aquário hospital.
Boa noite, Maurio

Então... eu não faria não, esse tratamento prévio com antibióticos em corais sem sinais de doença. O coral, na verdade, tem todo um grupo de variados micróbios na sua superfície que compõe o chamado holobionte coral; ele precisa desses microrganismos (bactérias, microalgas, protozoários e até fungos), que convivem com ele em equilíbrio, justamente para se defender dos germes mais agressivos que possa haver no ambiente, seja em um aquário ou no recife natural. Utilizar antibióticos na quarentena pode, na verdade, prejudicar o coral.

A profilaxia que se faz no coral, com os banhos, visa mais a parasitas e predadores (vermes, planárias, nudibrânquios), que a bactérias.

Abs
 

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